17/01/2012 - Finalmente foram realizadas as eleições parlamentares para a câmara baixa do parlamento do Egito, chamada de Assembleia Popular, que tem 498 cadeiras. Foram três etapas, uma em 28 de novembro de 2011, outra em 14 de dezembro de 2011 e outra em 3 de janeiro de 2012, sendo que cada uma delas contou com um segundo turno. O partido Liberdade e Justiça, braço político da Irmandade Muçulmana, conquistou 219 cadeiras (45,5% do total disputado) e o El Nour, partido de orientação islâmica mais intensa que o Liberdade e Justiça, conseguiu 122 cadeiras (25,5% do total disputado).
Assim, estes dois partidos de clara orientação islâmica conquistaram cerca de 70% da Assembleia Popular. A câmara alta do parlamento, conhecida como Conselho Shura, terá eleições durante os meses de janeiro, fevereiro e março deste ano, também em três etapas, mas o poder legislativo de fato se concentra principalmente na Assembleia Popular. Bem atrás destes dois partidos de orientação islâmica, o Liberdade e Justiça e o El Nour, vieram dois partidos de orientação bem mais liberal e secular, o Novo Partido Wafd, com 40 cadeiras (8% do total) e o Bloco Egípcio (7% do total). Vejamos a distribuição das cadeiras por partido:
Liberdade e Justiça: 219 cadeiras (45,5%) - 10,3 milhões de votos (36% do total) - 123 cadeiras por partido e 96 por distrito
El Nour: 122 cadeiras (25,5%) - 7,8 milhões de votos (27,2% do total) - 93 cadeiras por partido e 29 por distrito
Novo Partido Wafd: 40 cadeiras (8,5%) - 2,5 milhões de votos (9,9% do total) - 39 cadeiras por partido e 2 por distrito
Bloco Egípcio: 34 cadeiras (7%) - 2,4 milhões de votos (8,5% do total) - 31 cadeiras por partido e 3 por distrito
Al-Wasat: 9 cadeiras (2%) - 1 milhão de votos (3,5% do total) - 9 cadeiras por partido e 0 por distrito
11 outros partidos: 37 cadeiras (7%) - cada um com menos de 1 milhão de votos
Independentes: 18 cadeiras (3%)
2/3 das cadeiras foram eleitas por voto proporcional, enquanto que 1/3 foram eleitas por voto majoritário distrital. Assim, vemos que apesar da votação total dos dois partidos líderes não ser tão distinta, o Liberdade e Justiça teve quase o dobro de cadeiras que o El Nour, o que pode ser explicado por ter vencido uma grande quantidade de disputas distritais. Pode-se dizer que o sistema distrital favoreceu os dois grandes partidos. O mandato é de 5 anos e a cláusula de barreira para um partido entrar no parlamento é muito baixa, de só 0,5%.
Para as eleições da câmara alta, um importante partido laico do Bloco Egípcio, o Partido Egípcios Livres, já anunciou que vai boicotar a votação, em protesto pelas inúmeras irregularidades que o partido alega ter havido nas eleições para a câmara baixa. De certa forma esse tipo de postura diminui a qualidade da democracia no país, que precisa que o máximo possível de grupos políticos dispute as eleições para aumentar a representatividade das instituições eleitas. As eleições presidenciais estão a princípio previstas para março deste ano. É nessas eleições que de fato se decidirá para quem vai o poder do país, pois após essa eleição, as Forças Armadas entregarão o poder ao presidente eleito. Pelo resultado das eleições para a Assembleia Popular, a disputa pela presidência se centrará no Liberdade e Justiça e no El Nour.
Um possível candidato presidencial liberal, o ex-Prêmio Nobel Mohamed ElBaradei, anunciou no último sábado que não concorrerá à presidência, alegando não haver de fato uma real democracia no país. Seria importante que ElBaradei participasse para fortalecer a transição para a democracia no país, visto que ele tem representação considerável na sociedade do país. A eleição para a Assembleia Popular foi na prática uma prévia da eleição presidencial, mas também foi importantíssima para ajudar a solidificar os mecanismos democrático-eleitorais. A posse dos novos membros dessa casa legislativa será no dia 23 de janeiro.
Com a nova configuração pós-eleitoral, as correntes políticas nacionais e internacionais já começaram a se movimentar rumo a definir a distribuição do poder no país. O governo dos EUA já iniciou contatos com o partido Liberdade e Justiça, mais moderado que o El Nour. Tudo indica, principalmente pelos resultados desta eleição parlamentar, que os egípcios decidirão na eleição presidencial entre um governo islâmico de maior ou menor intensidade. No contexto internacional, essa decisão influenciará bastante a forma como o país se posicionará, entre outros assuntos, em relação a Israel e, na parte econômica, em relação ao setor de turismo do país. Clique aqui para ver o vídeo da notícia.